domingo, 9 de junho de 2013

Ninguém me Conhece: 76) Por que Carlos Careqa?

Uai? Porque penetrar na obra de Carlos Careqa é abrir um portal que dá prum universo excêntrico e... inclassificável! A primeira, e óbvia, impressão que temos é a de que se trata de um humorista que canta, meio que um Falcão sudestino. E ele próprio ajuda a que caiamos nesse engano, não à toa já chegou a convidar o próprio Falcão a cantar com ele. Pura armadilha. Careqa não é humorista (tampouco sudestino). É irônico, sarcástico, debochado, anárquico... mas engraçado. Daí sua opção por fisgar o público por meio do riso. Porém, ouvindo-o, não chegamos a um riso franco, aberto. Pelo (público?) contrário. É um riso nervoso, nevrálgico, que soltamos quase receosos, como se ríssemos de um defeito do vizinho que também possuímos, temendo que no verso seguinte sejamos nós os desmascarados. Careqa, expondo-se e tratando abertamente de suas esquisitices, aponta o dedo pras nossas.

1) Agora É pra Foder (Carlos Careqa)
Carlos Careqa e Falcão

A diferença entre o humor de Careqa e o dos humoristas-cantores é que o destes é censura livre, ao passo que o daquele é "desaconselhável" a menores. Não quero com isso dizer que os demais são todos uns ingênuos palhaços e que Careqa é o Coringa, não. Só que a sacanagem "censura livre" soa como uma droga legal. Já a sacanagem careqiana aborda (e ultrapassa) a ilegalidade. Choca mais do que um inocente palavrão num verso. É que Careqa, na condição de bom articulador e estrategista, constrói sua poesia quase como se brincasse com as defesas de quem o ouve, fazendo que a moçoila romântica, no momento em que estiver embebedada do aparente romantismo de uma canção, veja-se, de repente, desarmada (desnudada), como se, na hora do clímax, seu namorado, em vez de lhe dizer o esperado "eu te amo", soltasse um "f...-se".

E assim, após dois parágrafos mais especulativos que explicativos, nos quais este escriba se utiliza de artifícios puramente extraídos de sua imaginação pra parecer didático, chegamos ao terceiro, no qual trataremos das qualidades do moço (que é qabeludo! - ou, pelo menos, era...) que, imagino, devam ser incontestáveis. Sejamos óbvios: este é um compositor made in Brasil (com s, como tão bem sugere Walter Salles) dos mais originais desta safra que nem é mais tão nova assim. Aliás, melhoremos a frase, digamos dos mais originais em atividade, pois assim tiramos a pecha novidadeira e chegamos ao que importa. Afinal, novidades há muitas por aí. Cada machadada é uma novidade. Porém, pra se achar um compositor original há que se cavucar muito chão Brasil afora. E fora do Brasil, mas hoje me atenho ao lado de cá das cercas fronteiriças.

Dizia eu (antes de ser interrompido por mim mesmo) que Careqa é original. Mas falar em originalidade também é pouco, pois há muita gente por aí que é original e... chata! Careqa não. Além do mais, trabalha num campo raro da originalidade, pois é, também, versátil. Temos originais sambistas (e os próprios Originais do Samba), originais roqueiros, originais forrozeiros, originais... bem, a lista é vasta. Basta dizer que Careqa é original compondo de tudo. O que lhe dá na telha, seja em matéria de letra, seja em matéria de música, ele encara... Ia dizer de frente, mas nunca vi ninguém encarar de costas... Quer dizer, voltemos, pra não complicar. O que quero dizer é que quaisquer dois desses ouvintes de hoje em dia, que ouvem uma coisa só e acham que música é só aquilo, se ouvirem o som de Careqa vão acabar encontrando algo de seu gosto ali. Mesmo que seja em tom de farsa (e muito provavelmente).

2) Por Quê? (Carlos Careqa)

Há em sua obra, contudo (e também), momentos densos, enigmáticos, em que ele nos embaralha os sentimentos a tal ponto, que não sabemos se é pra rir ou pra chorar. Ou pras duas coisas. Eis outro aspecto de originalidade. Eu mesmo, na condição de compositor, já me peguei tentando decifrar o que estaria pensando Careqa ao compor a canção x ou y. Será que estaria emocionado, um tanto bêbado, ou estaria tirando uma onda brincando com as dimensões, ou mais, extensões dos limites éticos/estéticos a que uma canção pode chegar? Claro, porque mil coisas passam pela cabeça de um compositor quando está compondo, mas acho que essa é uma dúvida que vai ficar sem resposta, porque ele, se resolver contar os porquês de tais canções... certamente vai mentir.

Vocês estão percebendo que até agora não disse que ele nasceu na cidade tal, estudou sei lá onde, tem x discos, foi gravado por sicrana e beltrano, atuou na peça y, fez um disco de versões de algum thomas, vai tocar no bar Botas de Judas e tal e coisa? Nem vou dizer. Afinal, este é um texto sério, diria mesmo psicanalítico. Não vou chegar aqui e copiar e colar informações que se encontram às fartas na internet e depois assinar como se fosse meu. No, sir! Já que estamos aqui pra falar do moço, afiemos a lâmina. O negócio é vender o peixe, engambelar, digo, convencer o comprador. Depois vocês saem daqui e vão lá procurar o "produto". Certo? Queria deixar isso claro, pra que depois não venha alguém dizendo que falei, falei e não disse nada.

Bem, chegamos ao parágrafo em que o autor relata como se deu seu primeiro contato com o Qarlos. Na verdade, Careqa é o tipo de artista "quase famoso", aquele a respeito de quem grande parte do público dito antenado já ouviu falar, mas não liga o nome à pessoa. Era meu caso. "Careqa, conhece?", "Sim, carlos". E depois me sentia mal, porque, embora o conhecesse de nome, ainda não lhe ouvira nenhuma canção. Até que um dia fiquei sabendo que Kléber Albuquerque iria fazer um show em duo com ele, num bar cujo nome esqueci. E lá fui. Kléber já conheço de antanhos, então, a surpresa foi deparar-me com esse careqa de einsteinianos cabelos, que me arrebatou. E ele tinha todos os seus discos lá, à venda por dez pilas (hoje devem custar mais), assim que pedi que me sugerissem um, e de lá pra cá, quando alguém me pergunta "Careqa, conhece?", eu respondo "Sim, qlaro!".

Este é o parágrafo-ápice, aquele no qual o autor prepara a surpresa final, que encantará a todos, que terminarão a leitura dizendo "nossa, que bárbaro esse qara!". A última bolacha do pacote, o suprassumo, a faixa bônus, é acrescentar que Careqa, além de tudo o que citei acima, é um compositor de uma musicalidade incrível. Não se trata apenas de um belo letrista que compõe melodias, mas de um camarada que tem senso melódico e que traduz, ou melhor, cobre sua "modernidade" com um vestuário instrumental de dar gosto. Percebe-se que é um cara que aprecia o som dos instrumentos. Não fosse sua figura e suas inusitadas letras, podia ser considerado um compositor de emepebê. E a última mordida da última bolacha é que ele tem uma voz tão doce, mas tão doce, que torna tudo ainda mais... kafkiano? Porque soa absurdo aquela voz cantar o que canta com a maior naturalidade. É uma voz pura. Casta. Como a figura de um padre bonachão que esconde o detalhe de ser... pedófilo.  

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Careqa, sim(!), está no Caiubi.

Visite seu saite aqi.


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3) Meu Querido Santo Antônio (Carlos Careqa)

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16 comentários:

  1. Léo, realmente tenho de dizer: "nossa, que bárbaro esse cara".
    Tenho acompanhado o trabalho do Careqa e cada vez me maravilhado mais.
    É um cara que lava nossa alma, carente de boa música.

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    1. Completamente de acordo, Esther!

      Beijo,
      Léo.

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  2. Ótimo texto :)
    e Carlos Careqa é impressionante e supreendente!!!

    :*

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    1. Apareceu a margarida! Tudo bão, Moniketa?

      Beijo,
      Léo.

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  4. Incrível! Um texto totalmente condizente com este ser maravilhoso que é Carlos Careqa!

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  5. Parabéns pelo texto Léo! Também adoro essa originalidade genial do Careqa, que, como você disse, canta com voz doce as lindas canções que faz. Composições inteligentes, criativas e surpreendentes...

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  6. A melhor definição de Carlos Careqa. Na exata medida do talento do artista, parabéns!

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  7. Confesso que não tinha lido tudo por achar meio cabotino ficar lendo coisas a meu respeito. Mas tive curiosidade depois de ler os recados espalhados pela Rede. Obrigado Léo Nogueira, ótimo artigo. Vou utilizar na minha divulgação! Posso?

    Abraço,

    Carlos Careqa

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    1. Careqa, fico feliz que tenha gostado. O texto é seu. Pra mim será um prazer.

      Grande abraço (e parabéns pela obra),
      Léo.

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    1. Hahaha! Sim, de quebra virei seu muso. Cada um tem a garota de Ipanema que lhe concerne. rsrs

      Abração,
      Léo.

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