quarta-feira, 12 de junho de 2013

Crônicas Desclassificadas: 90) Algumas considerações acerca de manifestações públicas

Sou favorável ao direito a que a população se manifeste. É bom viver num país em que as pessoas podem sair às ruas e reclamar por melhorias em várias áreas. Sinal de que a liberdade de expressão está protegida por lei. Quando a blogueira cubana Yoani Sánchez  veio ao Brasil e foi calada por manifestantes contrários a seu pensamento, ela atentou pro fato de que em Cuba tais manifestações, caso ocorressem, seriam severamente reprimidas. E, quando falamos em liberdade, não se trata apenas da nossa e das pessoas que pensam como nós. A lei é igual pra todos. Assim, da mesma forma que vemos a Parada Gay, vemos a Marcha para Jesus, a Marcha das Vadias, passeatas contra o aborto ou o casamento de homossexuais, grevistas de várias profissões, manifestações do MST, comícios políticos, uma turma contra o Feliciano, outra a favor, uma galera exigindo a liberação da maconha e... o Movimento Passe Livre.

Eu tenho cá comigo minhas convicções. Acredito que num país justo o casamento devia ocorrer entre cidadãos que se querem, independentemente do sexo; a decisão sobre o aborto, assim como a eutanásia, devia ser exclusivamente de âmbito privado, afinal, cada um é dono de seu corpo; as drogas deviam ser liberadas e controladas, o que economizaria dinheiro e vidas, sem falar na geração de novos empregos (no mais, se o cigarro e a bebida são liberados, por que não?); as terras teriam de ser mais bem divididas; a distância entre o piso e o teto salariais não devia ser tão larga; a carga horária do trabalhador não devia exceder as sete horas diárias; a educação devia ser gratuita e obrigatória; qualquer tipo de jabá devia ser, além de proibido, fortemente penalizado; a cultura devia ser um bem acessível a toda a população; não devia haver mais que três... vá lá, cinco partidos políticos... A lista é longa, não caberia aqui.

O parágrafo anterior o escrevi apenas pra que você, leitor que ainda não havia passado por aqui e não sabe quem está escrevendo, antes de atirar a primeira pedra, saiba ao menos em quem vai atirar. Afinal, pretendo entrar num assunto espinhoso. Contudo, antes disso preciso dizer que, sim, acho o preço da tarifa de ônibus em São Paulo um absurdo, mais, uma total falta de respeito ao cidadão, que já paga exorbitantes impostos. Fiz uma rápida pesquisa e confirmei que São Paulo possui a maior tarifa entre todas as capitais brasileiras. Em Brasília, curiosamente, encontrei a mais barata, R$ 1,50. Achei engraçado, porque político não toma ônibus. Convenhamos, R$ 3,20 é de lascar! Principalmente se compararmos com outras grandes cidades do exterior. E o pior é que, quando pagamos caro por algo, esperamos ao menos qualidade no serviço, e passar uma, duas ou mais horas espremido e sufocado num coletivo em meio a um trânsito surreal não é exatamente sinônimo de conforto.

Isto posto, venho dar meu pitaco em relação a essas manifestações que têm ocorrido (não só) na capital paulista. Antes de mais nada, acrescento que adoraria viver num mundo onde não só a condução fosse gratuita, como também a saúde, a educação, a cultura, a alimentação etc., mas... Nesse caso teríamos de viver em outra sociedade e com outro sistema de governo, pois no atual acho pouco realizável tal gratuidade. Sou totalmente anticapitalista, mas o socialismo também não se mostrou a realização de nossos sonhos. Um sistema justo e eficaz está por se inventar. Mas voltemos. Transformar um serviço em gratuito, nesse atual sistema, é um tanto utópico, visto que tal serviço gera gastos: salários de funcionários, combustível, manutenção e renovação de frota e por aí vai. Certamente esse valor retornaria em forma de novos impostos. Talvez a saída fosse a quebra de alguns monopólios, mas a quebra de algumas estações não me parece ser dos melhores argumentos...

E ser estudante no Brasil já é sinal de privilégio. Mais dignificante seria se os estudantes tivessem o altruísmo de invadir as vias públicas exigindo que se acabasse com a mendicância; que tirassem as crianças das ruas e lhes dessem casa, escola, saúde; que se resolvesse o problema das enchentes e das moradias precárias; que os professores do ensino público tivessem um salário melhor que lhes possibilitasse uma melhor qualificação; que os planos de saúde não fossem tão cruéis com o bolso dos idosos; sem falar na questão da violência e na superlotação dos presídios; enfim, há muita coisa que merece que saiamos às ruas pra botar a boca no trombone. Mas, como frisei acima, reconheço-lhes o direito. O que não compreendo é o quebra-quebra, é o dano à coisa pública (e a uma ou outra coisa privada que estiver no meio do caminho), é o linchamento de um por muitos...

Aprendi que quando alguém se exalta, por mais que esteja certo nos argumentos, perde a razão. Em qualquer espécie de diálogo se sobressai aquele que se mantém tranquilo e sabe expor seus pontos de vista. Uma movimentação que visa a chegar a algum resultado deve contar com líderes que a saibam representar e, aprovados por ela, dialogar. Atualmente, com o advento da internet e das redes sociais, ao passo que mobilizar massas se tornou muito mais fácil, também se tornou muito mais perigoso, pois não temos o poder de saber quem irá nem o que fará. Vândalos, vadios e quetais adoram essas oportunidades pra extravasar sua ira, e os responsáveis por tais manifestações não sabem nem conseguem ter voz ativa pra refrear os ânimos de tais sujeitos. Dessa forma, muitas vezes o que se consegue é o oposto do que se pretendeu.

Outro ponto importante e que deve ser levado em conta atende pelo nome de: polícia. Em minha concepção um policial é um mal necessário. Nós, os seres pensantes, costumamos ter ojeriza a esses sujeitos fardados que agem como cães raivosos que atacam ao menor sinal do dono, brucutus que têm o costume de bater (atirar?) primeiro, depois perguntar. Nessa profissão o normal é achar todo mundo culpado até que esse "todo mundo" prove o contrário, ou seja, o oposto do que diz a lei. Pos bem, tais cidadãos (sim, afinal, também são filhos de Deus) por nós execrados fazem parte de um pilar importante da sociedade. Sem eles (no atual sistema, enfatizo), quem nos protegeria? Cada um acabaria virando um caubói armado. Portanto, sabemos de antemão que onde quer que resolvamos nos manifestar lá estarão nos esperando esses sujeitos, fortemente armados e preparados pro pior...

Bem, são muitas as questões que envolvem tais atos a serem abordadas. Tampouco eu tenho as respostas, apenas notei que as coisas estão se encaminhando pruma direção que põe inocentes em risco a cada nova manifestação. E aprendemos com os erros do passado (ou deveríamos ter aprendido) que violência gera violência. A frase é lugar-comum, eu sei, mas não por isso menos verdadeira. Demoramos muito tempo pra conquistar algumas coisas, então, é importante pensar bastante antes de, movidos pelos ânimos exaltados, dar um passo maior que a perna. As vitórias são alcançadas degrau por degrau. Quando um movimento desordenado começa a gerar insegurança pelo grau de sua periculosidade, sempre periga acordar as bestas quadradas que, em nome da família e dos bons costumes, são capazes de atrocidades bem maiores do que supõe nossa vã filosofia de seres pensantes.

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2 comentários:

  1. triste! y me trae malos recuerdos!

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    1. Sí, Marce. Ya lo sé. Yo escribí este texto el miércoles, el jueves hubo otra, y la policía reaccionó muy mal. Y hoy, lunes, esperamos otra y, por las noticias, la policía debe venir aún más violenta. Ojalá no pase nada.

      Beso,
      Léo.

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