quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Crônicas Desclassificadas: 67) Conto de babas

Dizem que quando a gente deseja muito uma coisa, mas MUITO MESMO, todo o universo conspira pra que consigamos obter o objeto de desejo. Com Naldinho acontecia justamente o contrário. Estava às vésperas da maioridade e ainda era BV (boca virgem), cabaço de boca. O outro cabaço perdera fazia alguns meses, quando dera umas bandas pelo centro e encontrara uma espécie de casa de assistentes sociais pra problemas íntimos. Só que a profissional a quem coube atendê-lo, por mais que fosse competente, fora categórica e respondera-lhe na lata que "Beijar eu não beijo!".

De forma que ele levava aonde quer que fosse o peso dessa vergonha. E a coisa tinha tomado tão desmesurada proporção, que havia muito deixara de ser um simples desejo pra se transformar numa verdadeira fixação. Naldinho, de criança alegre e bem-humorada que era até pouco tempo atrás, passara a ser um adolescente macambúzio e sombrio. E mais, não podia ver uma boca apetitosa, que perdia a noção do tempo pra ficar encarando-a. Na maioria das vezes tinha uma ereção e, em algumas situações extremas, chegava mesmo a atingir o orgasmo, o que virava um deus-nos-acuda, visto que ele procurava manter o rosto sério enquanto seu corpo inteiro se debatia em espasmos violentos de prazer.

Parou de frequentar a igreja por causa de uma boca. Como sua mãe era católica praticante, forçava-o a ir à missa todos os domingos, o que ele fazia no piloto automático. Muitas vezes chegava a cochilar durante toda a celebração, até que naquele malfadado dia se deparou com uma negra de lábios grossos e suculentos que fazia uma leitura. A moça, compenetrada em édens e evas e maçãs e serpentes, nem sequer percebeu Naldinho, que, de um dos últimos bancos, contorcia-se como quem está tendo um ataque de epilepsia, sem tirar os olhos daquela boca que se movia com malévola inocência. Nem conseguiu chegar até o fim da audição da leitura, correu pra fora, alucinado, mal tendo tempo de pisar os pés fora de território sacro antes que o líquido da vida se espalhasse por suas pernas finas.

Quando estava só em sua casa invadia o quarto da irmã mais nova e passava horas treinando com as bonecas desta. Só um problema anatômico atrapalhava seu treinamento: as tais bonecas não tinham orifício na boca, apenas lábios cerrados. Outro de seus passatempos favoritos era a masturbação, daí que o cômodo preferido de sua casa era já havia muitos anos o banheiro. Mas Naldinho, ao contrário dos demais rapazes de sua idade, só tinha olhos pra lábios. Os superiores, deixemos claro. Nem seios, nem barriguinhas, nem coxas, nem nádegas... Nada! Nem mesmo a, xo... xo... tá, vocês sabem, os portões do paraíso (ou do inferno, a coisa varia de pessoa pra pessoa). Não. Necas. Naldinho era só bocas.

E à medida que os anos iam passando a situação ia se agravando, e ele não conseguia mais esconder sua fixação. Chegara ao extremo de entrar numas de treinar com Xuxa, uma cadelinha poodle que era o xodó da casa. Pegava-a no colo, começava com um "gúdi-gúdi" e, quando esta abanava o rabinho, lá ia ele lhe tascar um beijo. Das primeiras vezes, Xuxa correspondia com lambidas em seu rosto, porém, como Naldinho forçasse a barra pra lhe enfiar a língua boca adentro, Xuxa, ao perceber que não se tratava de inocente carinho, pegara-lhe tal aversão, que, mal notava os passos sorrateiros de Naldinho se aproximando, já saía pela casa correndo e ganindo, como, dizem, o diabo costuma fazer ao se deparar com uma cruz.

É, Naldinho não dava sorte com o sexo feminino, tivesse a pretendida dois pés ou quatro patas... Na escola, era de poucos amigos, e, entre as meninas, tinha fama de maluco, pela maneira como costumava fitar uma ou outra durante minutos, praticamente sem piscar. Ninguém tinha coragem de lhe dizer nada na cara, mas, era ele virar as costas, e lá iam as insensíveis, entre risinhos, tachar-lhe mil apelidos. E o pior é que ele nem era feio. Ao contrário, se não chegava a ser um galã de cinema, ao menos tinha um rosto bem simpático. Não fosse aquele olhar meio fora de órbita que assustava suas vítimas, ele poderia até se dar bem com uma ou outra.

Mas voltemos no tempo e usemos de psicanálise pra entender o trauma do rapaz. Tudo começou com seu nome, Leonaldo. Sua mãe, fã de música sertaneja, encasquetara que o filho ia se chamar Leonardo, só que o analfabeto do funcionário do cartório onde ele fora registrado, ou por ignorância ou por desatenção, trocara o R pelo L, e a melda, digo, merda estava feita. Como ninguém percebeu, o tempo passou e nada aconteceu. Apenas quando ele passou a frequentar a escola a coisa veio à tona. Na hora da chamada as professoras diziam "Leonaldo" e ninguém atendia, até que ele se tocou que se tratava dele. Não demorou pra que fosse apelidado de Naldinho, e, Naldinho era, Naldinho ficou.

Foi então que ele, em desespero de causa, apegou-se com Santa Maria, mãe de Jesus, a quem fez promessa de virar padre, se ela conseguisse um modo de resolver seu insolúvel problema. E foi assim, numa quarta-feira chuvosa, que ele, prostrado de joelhos ante a estátua da santa, após chorar e gaguejar mil ave-marias, reparou em seus lábios angelicais. De repente a Terra parou de girar, o mundo ficou estático como num retrato, e foi ali, naquela silenciosa igreja, que Naldinho, então um imberbe garoto, teve sua primeira ereção, seguida de uma convulsão. Como não fizesse a menor ideia do que era aquilo, pensou tratar-se de milagre e saiu pelas ruas, de mãos erguidas pro céu, com a chuva lavando-lhe a vergonha (que ele até então não sabia ter).

Até que foi despertado de seu transe por um coleguinha da escola que vinha em sua direção, que, caminhando pela mesma calçada, segurando a mão da mãe e protegido por um enorme guarda-chuva, cruelmente lhe gritou: "Sai da chuva, Naldinhô!". A realidade caiu-lhe como uma bigorna em cima de suas ilusões. "Naldinho!". "NaldinhoNaldinhoNaldinho, NALDINHOOOOOOO!!!". O garoto levou as mãos à cabeça e saiu correndo rua afora berrando um infindável "NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!". Mas, como Naldinho era, Naldinho ficou.

O que passou foi sua pretensa vocação pra padre. Em compensação, não podia mais olhar pra Maria, fosse em versão estátua, fosse em santinho, sobre o andor, num filme bíblico, enfim, onde quer que fosse. Mas, como o diabo é sujo, passou a ver Maria em outras bocas, bocas essas que foram ganhando vida própria, até que, anos depois, já curado de tão abominável pecado, deixou de ter sonhos blasfemos com a santa e passou a sonhar (na maioria das vezes acordado) com bocas mais suscetíveis de receber uns bons, demorados e orgásticos beijos.

E foi então que voltou à cena, pra dar uma reviravolta nos rumos deste conto de babas, Barbosa, um dos poucos amigos de Naldinho. Sim, leitores, voltou. Da mesma forma que honorável político em certa ocasião já disse "Se eu errei, deixa que eu conserto", ele está de volta pra reparar o grito do passado. Afinal, Barbosa é nada mais nada menos que o mesmíssimo garoto de bom coração que, ao encontrar Naldinho naquela fatídica tarde em que este saía da igreja portando um milagre, gritou-lhe que saísse da chuva. Lembraram? Pois bem, Barbosa era filho único (e, naturalmente, mimado) de um casal de posses. E, como Naldinho, também tinha um problema a ser solucionado: era virgem. E não de boca, acrescentemos.

Como visse que se aproximava a data aniversária de maioridade de Naldinho, e ciente e consciente do suplício deste, resolveu dar ao amigo (e a si próprio) um presente. Quis o deus das coincidências, amigo dos contistas, que os pais de Barbosa viajassem de férias justo nessa data querida, o que deu ao rapaz a excelente ideia de realizar em sua casa uma festa, na qual convidariam muitas gatinhas, embebedá-las-iam e apagariam de seus currículos essa peça que o destino lhes quis pregar. O problema era que tampouco Barbosa era o que podemos chamar de um garoto popular. Ante a negativa de 11 entre 10 garotas convidadas, não esmoreceu, partiu em mil pedaços seu porquinho de estimação e contratou os serviços de, hã, profissionais.

E eis que chegou o grande dia. Com uma lábia (sic) inusual, Naldinho convenceu os pais a que lhe validassem o visto pra passar a noite na casa do amigo. A comemoração familiar seria um almoço no dia seguinte, o oficial, um domingo. Afinal, a festa na casa de Barbosa tratava-se da véspera. Assim, até a "virada" ele não seria mais BV. Chegou cedo na casa do amigo, por volta das 17h. Este o recebeu com duas latinhas na mão. "Vamo começar os trabalhos?". Marcara com as enfermeiras do prazer às 21h. Quando o cuco cocoricou as nove badaladas, como num conto de fadas a campainha soou. Eram as princesas que chegavam, com pontualidade britânica.

Das 17h às 21h podemos considerar uma eternidade pra dois rapazes ansiosos. Barbosa, temendo a ejaculação precoce, masturbara-se três vezes. Naldinho faria explodir um bafômetro, de tanto que mamara. Mas agora tudo isso eram antigamentes, lá estavam elas, três beldades: uma loira, uma morena e uma negra. Naldinho, com rara extroversão, colou na negra, dada sua protuberância labial. Trinta segundos depois, como num passe de mágica, já estava no sofá, num desentope-pia de dar inveja a muito galã de novela. Barbosa, sem humildade nenhuma, arrastou a segunda e a sobressalente pra seu quarto, onde viveria uma tórrida e inesquecível noite de luxúria. Estreia de gala!

Naldinho foi acordado pelos raios solares que saltavam a janela pra dentro da sala. De frente pra ele moribundeava Barbosa, calado, fumando da "planta da ciência do bem e do mal". E ele nem sabia que o amigo era dado a tais vícios. No lugar de "bom-dia", escapou-lhe o clássico "E aí, comeu?". Barbosa ficou uns segundos em silêncio, incrédulo. Depois, lembrando-se de que o amigo estava pra lá dos pra-lares na noite anterior, fez uma careta imitando um sorriso e sentenciou: "As duas, a noite toda! Uma sem-vergonhice só! E você, se deu bem?". Naldinho, ainda em êxtase, mostrou-lhe a enorme mancha nas calças, proferiu um "Foi a melhor noite da minha vida! Beijei, rebeijei e trebeijei até desmaiar de tanto tesão!". Naquele momento Barbosa decidiu que iria cursar filosofia. Vendo a alegria do amigo, preferiu não lhe revelar que, dada sua inexperiência no assunto, fizera uma lambança e contratara, por engano, três travestis. Também não vinha ao caso ele dizer que broxara e acabara quebrando o outro cabaço. O importante era que agora eram ambos homens plenos, sabedores de que "são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão", e preparados pro que desse e viesse.

***

Trilha sonora:


IRRESPONSÁVEL
Marcio PolicastroLéo Nogueira 

O beijo, quando quiser acontecer, expresse 

Saia da garganta da alma 

Urgente como um jorro, sem nós e sem trauma 
Maroto, roto, salivando de estresse 
Como um orgasmo, um palavrão ou uma prece 

O beijo, quando quiser acontecer, exploda! 
Como um homem-bomba pelos ares 
Um beijo pardo, perdulário procurando ímpares 
Maluco, truco, hemorragia, foda 
Feito gangrena, feito a fome toda 

Beijo banguela devorando o osso 
Beijo nervoso de quem rói a unha 
Beijo de bêbado, fundo do poço 
Beijo bi, beijo bicho, línguas sem alcunha 

Que seja a vidraça e o estilingue 
Irresponsável, beijo que não procede 
Feroz, voraz, de animais num ringue 
E, no final, o incêndio é que apague a sede

***

8 comentários:

  1. Muito Show. Musica e conto. Parabéns! Adorei! :)

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  2. Adorei, "seo" Escritor preferido!
    Beijo e Luz
    SAUDADE!
    Quando parceiramos novamente?

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    1. Tato, o homem-gargalhada! Hahaha! Quando quiser, Tatíssimo!

      Beijão,
      Léo.

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  3. Adorei o conto a lá Leo Rodrigues(de Nelson)
    Nem vou dizer novamente que sou fã de seus escritos.
    Beijos e acho que não fiz falta nenhuma nos finalmente do conto.
    Beijos e vou dividir por aí...

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    1. Divida, Lucinda! Pra que multipliquemos!

      Beijos,
      Léo.

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