domingo, 29 de setembro de 2013

Grafite na Agulha: 3) Zé Ramalho é dez!

Não pretendo estabelecer aqui uma ordem cronológica, tampouco classificatória, pois sensibilidade é um bicho esquisito que muda dum dia pro outro (qualquer semelhança com o sexo feminino é mero propósito). Assim, respeitando-a, escreverei ao sabor dos ventos lembrantícios. Então, se hoje eles quiseram soprar nesta direção, e como nem eu nem Paulinho da Viola nos navegamos, quem nos navega é o mar, deixo a brisa me levar. No mais, tratar deste camarada em meu primeiro texto tem um significado que não dá pra exprimir através de palavras (mesmo porque elas não são vidraças, embora possam ser janelas), mas, como sou teimoso, tentarei, por meio de outras palavras. Com vocês, o admirável:

Zé Ramalho é dez!

Pois bem, já que, sem querer querendo, quando dei por mim me encontrava em pleno processo, não de Kafka, mas de escrever uma "autobiografia" aqui por meio de um blogue, tomei umas e outras (mais outras que umas) e resolvi, já que tenho a costumeira falta de noção de me expor demasiadamente (e já que estou por aqui mesmo), mapear o que sou por meio do que ouvi/ouço. Não, não vim aqui apenas fazer um relato de discos alheios, vim  mais uma vez me desnudar, rubro, mais envergonhado que o mais inocente entre os culpados, enfim, vim traçar um perfil da música brasileira (y de otras) sob a ótica de minha lente, de cinco graus...

A intenção é tratar dos discos que me (incon)formaram. Fazer uma faxina no cérebro e espanar o pó do som de meus conterrâneos, de meus contemporâneos, de meus antecessores e de meus... enfim, dos meus! E resolvi começar por este cabra justamente por um detalhe dos mais bestas: estava eu neste domingo, mais conhecido como 3 de junho de 2013*, sozinho (Kana viajara, pra variar), olhando pela janela um céu plúmbeo (adoro essa palavra... acho mesmo que sou um ser plúmbeo!), tomando um vinho barato ("Ana, teus lábios são labirintos...") e me lembrei de ir atrás dos primórdios... musicais, deixemos claro. Ou escuro. O fato é que...

... o fato é que eu iria agir como um tremendo de um hipócrita se este primeiro relato tratasse de Beatles ou de Rolling Stones. Não, queridos leitores, nada de revolucionário que ocorreu em minha vida, musicalmente falando, é claro, devo a essas duas bandas. Ok, não desgosto delas, e reconheço sua importância (vim mesmo a gostar bastante delas tempos depois), só que não vivi seu auge, muito menos herdei de meus pais tal gosto. Aliás, tenho a impressão de que meus velhos nem sabem quem são (ou foram) esses boys. O que prova que Lennon estava enganado ao se achar mais conhecido que Jesus. Mas deixemos os ingleses de lado. Pois vim aqui dizer pura e simplesmente que minha primeira grande viagem de despirocação musical se deu por meio de um paraibano chamado... Zé Ramalho! Sim, senhores! Um zé, que nem eu. Eu, um zé do Ceará; ele, um da Paraíba.

E o modo como cheguei a ele foi dos mais interessantes. Além disso, como vocês irão notar, nem se tratou de um disco de carreira, mas de uma compilação... e o pior: uma compilação alheia! Mas era uma compilação tão particular, que me sinto como se tivesse sido seu único dono. E, obviamente, não fui o único pobre do mundo a gozar com o... o disco dos outros. Afinal, um disco é como um livro. Não precisamos trancafiá-lo num baú no sótão pra que seja mais precioso. Por vezes o prazer compartilhado (diria até na maioria das vezes) é ainda mais autêntico. Que o digam os livros de bibliotecas públicas, que já passaram de mão em mão (como as profissionais do sexo) e nem por isso perderam o dom de dar prazer.

Mas voltemos, que hoje eu sou todo divagações... Chegamos ao momento das explicações: antes deste disco (e depois dele, obviamente) tive muitos outros que me marcaram, mas este, em particular, foi pra mim revolucionário. Foi assim: no então segundo grau conheci um grande amigo mineiro, negro, chamado Eustáquio, que morava perto de casa com outro amigo mineiro, branco, ambos vindos de Divinópolis. Assim, passei a frequentar a casa onde viviam ambos. E o amigo de Eustáquio, Luciano (um magrelo alto com um nariz de dimensões icebérguicas que jamais se adaptou ao clima paulistano), adorava beber (comer, dormir) ouvindo a tal compilação do supracitado !

E eu adorava ir à casa da dupla (não, eles não eram um casal), com outros amigos do colégio, levando umas brejas. Lá chegando, eles apagavam as luzes, e ficávamos horas bebendo, papeando e ouvindo, às escuras, Zé Ramalho nos ensinar sobre Orwell, umas tais camisas de vênus num chão de giz, um avô que era pai, os papiros de Papillon, as papoulas na terra do fogo, os que viviam calados pendurados no tempo, a esfinge que era mulher e outras esquisitices que pra nós eram tão psicodélicas quanto se se tratassem das que soavam do outro lado do hemisfério. Por essas e outras eu tenho de reconhecer que devo a esses dois mineiros o privilégio de ter me iniciado nesse som do car... digo, do Ramalho.

É, meus caros, ninguém escolhe onde nem quando nasce. E, afinal, somos todos resultado desses milagres da relatividade. Tenho uma amiga roqueira que me recrimina por ouvir (e compor) uma tal de MPB. Tampouco eu gosto de siglas, mas, se não for honesto com meu passado, como serei com meu futuro? O lance é o seguinte: ninguém escolhe onde e quando nasce (tô me repetindo, eu sei, mas foi só pra enfatizar): eu nasci no Ceará, e me emborraché ao som de Zé Ramalho, o que me dá um baita orgulho, por saber que ele é mais nordestino que eu e por saber, ademais, que uns amigos mineiros o tinham em alta conta. De modo que poderia tratar de tanta gente neste primeiro relato, mas, por livre e espontânea (força de) vontade, escolhi o Ramalho! Afinal, por conta de meu destino um som nordestino me cai bem melhor que um londrino.

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*Data em que comecei a escrever este texto. Como viram, demorei pra terminá-lo.


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Dez anosZé Ramalho (1980 e...? – CBS)


Lado A
1. Admirável Gado Novo
    (Zé Ramalho)
2. A Terceira Lâmina 

    (Zé Ramalho)
3. A Peleja do Diabo com o Dono do Céu 
    (Zé Ramalho)
4. Beira-Mar 
    (Zé Ramalho)
5. Vila do Sossego 
    (Zé Ramalho)
6. Ave de Prata 
    (Zé Ramalho)
Lado B
1. Avôhai 
    (Zé Ramalho)
2. Mistérios da Meia-Noite 
    (Zé Ramalho)
3. Orquídea Negra 
    (Jorge Mautner)
4. Chão de Giz 
    (Zé Ramalho)
5. Jardim das Acácias 
    (Zé Ramalho)

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Ouça o LP na íntegra aqui:



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4 comentários:

  1. Demais!!! Como eu gosto eu gosto de Avohai!

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    1. Como gostamos, Márcia!

      Grato pela visita!

      Léo.

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  2. "Admirável gado novo" é demais. Zé Ramalho é dez! Lucia Helena Corrêa

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