segunda-feira, 12 de março de 2012

Cançonetas: 1) "De Aldeias e Pessoas", por Adolar Marin

Eu estava no meio de uma aula de Literatura Portuguesa, matéria das mais interessantes, ministrada pela professora Virgínia Antunes, quando de repente, não sei bem por qual motivo, o assunto decaiu sobre MPB. E ela, num tom nostálgico, lamentou que atualmente não tivéssemos mais tão bons compositores como tínhamos antigamente. Eu, que costumava ser dos mais calados da classe, ao ouvir isso, manifestei-me dizendo que ela sabia bastante de literatura portuguesa, mas estava defasada no que dizia respeito à música brasileira que se faz atualmente. Ela se disse feliz por estar enganada e me "desafiou" a que lhe pusesse ao dia.

Gravei-lhe um CD só com canções de artistas novos e entreguei-lhe em outra aula. Não sei se foi nessa mesma aula, mas aconteceu que ela nos mostrou um soneto de Fernando Pessoa, e, ao lê-lo, veio-me a ideia de compor um soneto. Embora a estrutura não me fosse de todo estranha, jamais havia composto um. Empolgado, ali mesmo, durante a aula, acabei compondo meu primeiro soneto, De Aldeias e Pessoas. Gostei tanto do resultado que, durante um tempo, todas as vezes que queria compor o fazia sempre em forma de soneto, com versos decassílabos.

Pesquisando, descobri que o soneto surgiu na Itália, mais precisamente na Sicília, e era originalmente cantado. Em italiano se diz sonetto, que significa pequeno som ou pequena canção. Com o tempo, o soneto deixou de ser cantado pra ser simplesmente escrito. Então me veio a ideia de resgatar o sentido original da palavra e compor sonetos pra serem cantados. Pra mim, além de instigante, foi um exercício fácil, pois sempre tive o costume de compor atendo-me a métrica e caprichando nas rimas. Claro que não obrigatoriamente, mas regularmente.

Nunca quis gravar um disco com canções minhas. Sempre achei que se as canções que fiz com outros parceiros não eram boas o bastante pra que eles (ou outros) as quisessem gravar, seria apenas ego de minha parte juntá-las num disco. Mas desde que passei a compor sonetos mudei de ideia, pois vi aí um bom motivo pra pôr meu nome na capa de um disco. Coincidentemente, descobri há algum tempo que o compositor espanhol Joaquín Sabina é também exímio sonetista, tem inclusive um livro de sonetos que vendeu muito bem na Espanha. E digo coincidentemente porque justamente dois projetos meus que gostaria de ver realizados são um disco de sonetos musicados e um disco de versões em português de Sabina.

Batizei o projeto de Cançonetas, que é também o nome desta nova coluna que inauguro hoje. Procurarei postar regularmente o resultado desses sonetos musicados. Voltando ao primeiro, De Aldeias e Pessoas, resolvi entregá-lo a meu mano Adolar Marin, por um motivo muito justo. Como esse soneto nasceu numa aula em que era apresentado um de Fernando Pessoa, e como a primeira vez que li Pessoa foi apresentado justamente por Adolar, achei por bem que fosse ele a musicar o dito cujo. O resultado é o que segue:

DE ALDEIAS E PESSOAS

Eu, que já fui de versos e de prosa
E, proseando, fui fazendo versos,
Morri mais de uma vez, como quem goza
Mas fui do cemitério rumo ao berço

E, ainda sendo eu, outro me fiz
Pra ser mais eu por trás de outra pessoa
E, embora triste, quase sou feliz
Só por não crer na dor, mesmo que doa

Eu, fingidor, inventei minha aldeia
E a levo pra Macondo ou pra Macau
Meu lar, mais que uma língua, são ideias

E assim, um rio corre em Portugal
E um outro rio corre em minhas veias,
Mas dão num mesmo mar, universal

***

4 comentários:

  1. Gabriel de Almeida Prado12 de março de 2012 06:25

    Manooo...do caralho essa letra aí.
    Mas...e a professora, gostou do disco que você gravou pra ela?

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    1. Siiiimmm! Gravei um CD pra ela com o filé do novo!

      Abração do
      Léo.

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  2. Hola Léo !!!
    wowww... no sabía la historia del soneto !!! ...
    muito bom que você tente o sentido original....
    me encanta "De Aldeias e Pessoas" ....
    esperoq ue algún día Sabina grave en português...
    até...

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    1. Gracias, Javier! Adelante!

      Saludos desde Sampa,
      Léo.

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